Na dissertação argumentativa, o compromisso de defender um ponto de vista faz com que a ênfase recaia no raciocínio e na discussão dos fatos. É preciso formular argumentos consistentes. Isso determina uma linguagem sóbria e atenta à norma culta. Coloquialismos e gírias, por exemplo, conferem uma excessiva informalidade ao texto e devem ser evitados.
Nem sempre os alunos observam isso, como se vê na passagem seguinte:
"Bom, alguns podem até usar a desculpa do 'não consigo diminuir o ritmo' e dar prioridade ao dinheiro, mas só enganam a si mesmos. Porém, não precisa ser nenhum Einstein para saber que nada disso vai trazer benefícios para a saúde, muito menos para a qualidade de vida."
Nesse trecho há menos três escolhas que não se ajustam ao texto dissertativo-argumentativo. A primeira é uso de "Bom", que juntamente com "então", "isso", "aí" e semelhantes são marcas de interlocução e, como tais, próprias da linguagem oral. Servem para preparar o que se vai dizer, indicar um tempo de espera enquanto se organiza o pensamento. Não têm cabimento num texto escrito e formal, em que as informações já chegam organizadas ao papel.
Outra escolha inadequada é a substantivação de "não consigo diminuir o ritmo". Trata-se de uma transcrição, em discurso direto, de um enunciado que deveria ser expresso indiretamente. Por exemplo: "Alguns podem usar a desculpa de que não conseguem diminuir o ritmo." Nesta versão se informa de maneira objetiva a atitude de algumas pessoas; na que o aluno escolheu, como se piscasse o olho para leitor, dá-se a entender que esse é um tipo de desculpa... manjado.
A terceira escolha imprópria é a referência a Einstein, que soa gratuita. Ninguém imagina que, para saber o que traz benefícios à saúde, alguém precise de um grau excepcional de inteligência.
A obviedade da informação torna-a dispensável num contexto em que o importante é apresentar com rigor o pensamento.
Nas passagens seguintes, também extraídas de redações, há outros problemas de registro. As expressões grifadas constituem metáforas desgastadas, que cairiam bem num papo informal:
- "Atualmente o marketing pessoal é vital para se estabelecer no meio social, pois é notório que a aparência é a bola da vez."
- "Com exemplos como o Uruguai e o Canadá, o povo brasileiro entrou na onda de lutar pela legalização da maconha afirmando ser para fins terapêuticos e que a liberação diminuirá a violência e o tráfico de drogas."
- "A ausência de valores morais é o pontapé inicial para a violência que reina entre os jovens da classe média."
- "Conforme as transformações sociais, as mulheres resolveram correr atrás de seu reconhecimento."
- "Hoje em dia a relação entre alunos e professores está mais para uma de patrão e empregado."
Todas elas têm equivalentes em linguagem formal que se ajustariam melhor ao contexto, e com a vantagem de dar mais precisão aos enunciados. Compare:
- "a aparência é a bola da vez": cultuar a aparência está na moda;
- "o povo brasileiro entrou na onda de lutar pela legalização da maconha": o povo brasileiroaderiu ao hábito de lutar pela legalização da maconha;
- "A ausência de valores morais é o pontapé inicial para a violência": A ausência de valores morais dá início (provoca) a violência;
- "as mulheres resolveram correr atrás de seu reconhecimento": as mulheres resolveramreivindicar (lutar por) seu reconhecimento;
- "a relação entre alunos e professores está mais para uma de patrão e empregado"; a relação entre alunos e professores mais se assemelha à de patrão e empregado.
Como se viu, a opção por uma linguagem formal não significa que se deva usar termos poucos comuns (o tal do "escrever difícil"). Pelo contrário; os vocábulos não podem constituir um entrave a quem deseja fazer-se compreender. Como defender uma posição sobre determinado tema sem passá-la com a máxima clareza ao leitor?
Essa é uma das razões pelas quais, nesse tipo de texto, é preferível usar as palavras em sentido denotativo. A denotação favorece a objetividade e a transparência, o que garante fidelidade às ideias. É preciso, sobretudo, evitar a obscuridade; não se pode correr o risco de dizer o que não se quer devido ao emprego ambíguo de um termo.